Os Dois Agostos de Canas de Senhorim
Por NUNO AMARAL
PÚBLICO
Segunda-feira, 02 de Agosto de 2004
A freguesia de Canas de Senhorim comemora hoje um dia carismático com um travo ambíguo na boca: de orgulho e de vergonha. A data, 2 de Agosto, representa o marco de um genuíno movimento popular, dominado por um forte espírito comunitário e orientado para um objectivo de envolvimento democrático: a criação do concelho. Há 22 anos, em 1982, que a população se mobilizou contra a saída da estação dos correios da vila, tendo cortado a linha férrea e entrado em confronto com as forças policiais. É por isso também que essa data e esse acontecimento se festejam anualmente no largo 2 de Agosto, eventualmente na mesma praça que, há pouco mais de uma semana, recebeu cartazes pedindo a cabeça a Lira Keil do Amaral. "A Lira é uma víbora venenosa que tem que ser morta" ou "a Lira tem de morrer". Ora qual foi o crime de Lira? Lira Keil do Amaral, habitante de Canas de Senhorim, escreveu no "Jornal do Centro" aquilo que muitos habitantes não ousariam fazer. Por receio, apenas. Ousou assumir que teve medo de ir votar nas eleições europeias, e que considera que o movimento que luta pela restauração do concelho de Canas "está completamente dominado por um grupo fanático, que deseja mais o espectáculo do que resolver os problemas da terra. Nunca se lhes ouviu um plano de desenvolvimento". Além dos cartazes, foi posto a circular na freguesia um "Manifesto Anti-Lira", assinado por outro habitante chamado "Conde Montanelas, vingador e tudo". Num jaez deplorável e num estilo pútrido, Lira Keil do Amaral foi insultada porque afirmou que teve medo de ir votar. Não foi, decerto, este o espírito que há 22 anos moveu a população que se bateu por uma causa que assumiam como justa. O princípio da legitimidade da luta pela autonomia pode até ser transportado para este Agosto, a forma como se desencadeia é que parece ter recuado à idade da barbárie